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2013 nacional: a Constituição, a última fronteira

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 25.01.13

A curta-metragem anterior cujo final o realizador sensato quis deixar em suspense para não se assemelhar às inúmeras telenovelas nacionais de fraca qualidade, está de certo modo relacionada com a já longa-metragem É preciso mudar a Constituição

Andam os States agarrados à sua Constituição setecentista, acrescentando-lhe umas Emendas, jurando respeitá-la porque é lei, e a lei é a base de funcionamento de uma comunidade, é um conjunto de regras que garantem a ordem e o equilíbrio social, e por cá a Constituição é um obstáculo. O argumento mais falado para defender alterações da Constituição é fraco e oportunista: parece que tem lá inscritos uns certos direitos que os cidadãos consideram fundamentais como o direito à saúde e à educação tendencialmente gratuitas.

 

A Constituição é um obstáculo a um plano muito mais abrangente do que a simples actualização de um ou outro pormenor. De certo modo, os actuais guionistas revelaram o plano com o título pomposo que foram escolher (Freud explica): A Refundação do Estado.

Re-Fundação = voltar a fundar, voltar ao início, reconstruir de base, destruir para construir de novo. Esse é o plano.

Estado = nesta fórmula publicitada da Refundação, o Estado são os serviços prestados quase gratuitamente a cidadãos que não querem pagar por eles. Com os cidadãos a pagar pelos erros governativos de sucessivas equipas de gestores políticos e financeiros, com impostos e cortes, falar em serviços tendencialmente gratuitos...

 

Mas no plano que motiva a Re-Fundação do Estado, o Estado passa a ser precisamente aquilo em que se transformou na realidade = serviços, negócios, empresas controladas pelos partidos que estão no poder. Nesse Estado os cidadãos não entram a não ser como consumidores obrigatórios dos serviços que os gestores políticos e financeiros estiverem dispostos a pagar depois de garantidas as suas mordomias.

De certo modo, foi esta a lógica europeia também: os países como Portugal foram aliciados para se desfazerem de áreas económicas fundamentais como a agricultura e as pescas, e alguma da sua indústria, para se transformarem em consumidores. Estão a ver a lógica? A lógica é a criação de dependências.

 

Hoje os cidadãos devem evitar a todo o custo continuar a ser tratados com o desprezo que os gestores políticos e financeiros os têm tratado e muito menos aceitar esta curta-metragem da Re-Fundação do Estado. Se eles querem um Estado para eles, que o sustentem eles, certo?

 

Ora as únicas vozes que se ouviram contra esta curta-metragem foram as do PCP, do BE, dos Verdes... e do PS. A coligação do governo esperava provavelmente que Seguro alinhasse na aventura, mas tal não se verificou. Seguro, convictamente ou não, estrategicamente ou não, enfrentou o PM na AR. 

É aqui que esta curta-metragem liga com a anterior, aquela em que personagens ligadas ao anterior governo e ao anterior PM se juntam para propor apear Seguro antes das autárquicas em que se prevêem resultados muito favoráveis ao PS. 

Seguro não está a seguir a lógica do bloco central nem do Estado que se pretende deles. É também um obstáculo à Re-Fundação do Estado. E está a marcar pontos a nível da tal consistência e credibilidade com as quais os seus adversários internos não contavam. A vida tem destas ironias filosóficas.

 

A Constituição é um conjunto de princípios fundamentais, é como um contrato vitalício de definição de regras inquebráveis que definem e garantem o convívio saudável e pacífico dos cidadãos e grupos de cidadãos. Direitos como o da igualdade e de equidade que, na prática, são desrespeitad0s e espezinhados todos os dias. Depois da Re-Fundação do Estado e das mexidas na Constituição para a obter, o que ficaria? A Carta dos Direitos Humanos como recurso? 

A cultura corporativa, que se entranhou em quase todas as camadas sociais, de tal modo que se considera normal a evidência do desrespeito diário e visível dos direitos fundamentais da igualdade e da equidade perante a lei, ou em que se considera normal a mentira oficializada (basta ver as notícias nos telejornais), é que é o verdadeiro obstáculo à animação da economia e à construção do futuro.

 

Esta cultura corporativa iniciou-se muito antes da politização do Estado pelos partidos do bloco central, e muito antes do Estado Novo (vejam o título sugestivo dessa outra longa-metragem). Entre os dois movimentos culturais, chamemos-lhes assim, houve dois pequenos interregnos culturais e não foi o do PREC: foram a primavera marcelista e a AD de Sá Carneiro e Freitas do Amaral.

Sei que esta minha análise é polémica, mas reparem no seguinte: Marcelo Caetano utilizou a tecnologia de comunicação da época, a televisão, para falar directamente aos cidadãos no seu programa Conversas em Família, e Sá Carneiro dirigia-se igualmente aos cidadãos reconhecendo-os como a base da construção do futuro. (Podem tentar ridicularizar o programa de Marcelo Caetano quantas vezes quiserem, vi-o sempre com interesse e tinha apenas os meus 13, 14 anos, e convenhamos, um título como Conversas em Família, é muito mais humano e social do que Re-Fundação do Estado.)

 

Ora bem, o início desta cultura corporativa nacional é até muito anterior à República e à sua cultura bélica. Esta cultura corporativa inicia-se com a centralização do poder, as conspirações contínuas na corte, o parlamento da época, e com a perda de influência das ordens religiosas e da Igreja. Não, ainda não fui verificar essa parte da História de Portugal no calhamaço de Rui Ramos, mas é minha convicção que essa fase é determinante para explicar a actual cultura predominante dos gestores políticos e financeiros, que se foram transformando nos decisores do Estado actual.

 

Houve um tempo em que o poder e a influência das decisões que afectam as populações estava organizado e distribuído pelas diversas grandes regiões do país. Podem dizer-me: isso tinha a ver com as dificuldades de deslocação, etc. e tal. Pois é, isso aumentava o isolamento das regiões do interior, mas esse isolamento manteve-se no Estado Novo e actualmente esse processo foi agravado num abandono sistemático dessas regiões. Só que no Estado Novo a Igreja, apesar de tudo, já não era perseguida. Curiosamente, a Igreja teve um papel fundamental na primavera marcelista, no tal interregno de que falei há pouco, foi uma voz activa a lembrar os tais direitos fundamentais que agora nos querem refundar.

A autonomia relativa das diversas regiões do país há muito que foi sendo reduzida e actualmente está completamente absorvida pela politização do Estado.

 

Alguém que se atreva a pôr o plano em questão, o que se esconde por detrás da alteração e/ou actualização da Constituição e que foi revelado no termo Re-Fundação, alguém que se atreva, dizia, a querer analisá-lo e debatê-lo seriamente, é um obstáculo a eliminar.

Seguro tem de ver se se consegue segurar até às autárquicas, pois é a areia que entrou na máquina em movimento. Se conseguiu acertar na nossa posição face à troika, se aí marcou pontos, se consegue manter uma postura de alguma candura e ausência de arrogância, o que também lhe dá alguma simpatia popular, segure-se como puder até às autárquicas.

 

Última reflexão polémica: qual é o papel do CDS nesta longa-metragem e nestas duas curtas? Alguns meninos de coro a aclarar a voz de vez em quando, regidos por um experiente político? Ou o mesmo papel que o actual Presidente está a fazer, de influência por trás das cortinas? Pensam V. Ex.cias que os cidadãos são uns figurantes que só existem antes das eleições ou como contribuintes? E que vão aceitar, depois dos cortes, a sua refundação?

 

 

publicado às 11:48

2013 nacional: "vai formoso e não seguro"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.01.13

A política nacional segue o guião esgotado das velhas estratégias do poder: uma personagem é utilizada num determinado período de tempo suficiente para se esquecerem falhanços e impopularidades recentes, mas para ser apeada na altura certa. Claro que a personagem, pensavam os seus adversários, não reunia as qualidades para se tornar consistente e credível, o que jogaria a seu favor. Na hora certa ninguém duvidaria que o grande grupo lhe voltaria as costas com a mesma pressa com que o apoiou.

 

Mas a vida tem destas surpresas: a personagem aguentou-se bem no seu papel, e o que disse até aqui veio a confirmar-se fazer algum sentido. A sua colagem à posição de Hollande, muito criticada e até ridicularizada de forma sistemática, verificou-se correcta: a posição de Hollande acabou por pesar nos subsequentes discursos oficiais europeus e antecipou-se a preparações apressadas de estratégias para o crescimento da economia.

No caminho seguro da personagem entrou o papel de conselheiros experientes e a personagem revelou a humildade suficiente para os ouvir, sinal de alguma inteligência prática. Adquiriu consistência e credibilidade, bases de uma confiança necessária para obter bons resultados eleitorais. E a sua postura quase cândida e isenta de arrogância ligou bem com a actual situação nacional.

Agora querem apeá-la porque as sondagens lhe são favoráveis e as autárquicas prometem.

 

É aqui que, nesta curta-metragem, o realizador sensato exclama: Corta!

Como é lá isso? Que lógica é a desse guião? Querem ganhar as autárquicas ou não? 

O guionista engole em seco: Querem mas não querem jogar pelo seguro... querem arriscar uma batalhazinha entre vários candidatos mas é só para inglês ver, é para colocar lá outra personagem, como aquelas roletas viciadas... está a ver?

O realizador recusa esse final no guião: Isso é muito déjà vu, até chateia. Deixa-se em suspense...

E a curta-metragem ficou célebre pelo título camoniano aplicado ao novo ano nacional: vai formoso e não seguro...

 

Formoso, claro está, porque no discurso oficial está tudo bem, fomos aos mercados (?), já escapámos da bancarrota (??), somos mais parecidos com os irlandeses do que com os gregos (???), e valeu mesmo a pena sermos bons alunos (!)

 

 

 

publicado às 22:40


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